http://correio.rac.com.br/_conteudo/2013/09/entretenimento/99246-livro-se-propoe-a-desvendar-misterios-da-criacao-artistica.html
13/09/2013 - 05h00 | Fábio Trindade
fabio.silveira@rac.com.br
Cecília Prada, de 83 anos, começou a trabalhar com literatura aos 19. Ou seja, “já se vão mais de 60 anos na área”, lembra a escritora e jornalista. Nessa jornada, teve a ousadia, ainda muito jovem, de escrever críticas literárias, inclusive de Carlos Drummond de Andrade. “E recebi uma carta, de seu próprio punho, agradecendo pelo texto.” Há 20 anos, ela escreve para a revista 'Problemas Brasileiros', publicada pelo Sesc-SP, sobre história, arte e, claro, literatura. Com tanto tempo vivendo o assunto, Cecília decidiu extrair da biografia de alguns dos mais importantes escritores brasileiros elementos que permitam desvendar os mistérios da criação artística de cada um. Uma análise que virou o livro 'Profissionais da Solidão
“Trata-se de uma coletânea de artigos que fiz sobre esses escritores, sendo 21 no total, tendo como enfoque justamente o trabalho difícil do escritor. É uma ideia contraria a ideia corrente de que o cara bom é o que vende, que congrega multidões, o autor celebridade. Eu mostro escritores que, apesar das dificuldades da vida, apesar de não terem tido gratificação correspondente, seja dinheiro, sucesso, deixaram obras que constituem patrimônio permanente para a cultura”, ressalta.
Cecilia se sente confortável falando sobre isso porque ela, como ficcionista e com 14 livros publicados, entende o esforço que um escritor deve fazer para chegar ao resultado desejado, levando em consideração determinantes da sociedade e do tempo em que esses autores viveram, buscando para desvendar os mistérios que rondam suas criações literárias. “Além de sofrerem com circunstâncias exteriores, como preconceito e falta de dinheiro, muitos deles tinham problema internos, até mentais. Lima Barreto era um alcoólatra, por exemplo”, conta.
Para refletir sobre o poder da palavra, os autores brasileiros escolhidos vão desde Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Cecilia Meireles, Lúcio Cardoso e Euclides da Cunha, até Clarice Lispector, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Pedro Nava, Nelson Rodrigues e Qorpo-Santo.
Serviço
Lançamento do livro 'Profissionais do Silêncio', de Cecília Prada
Nesta sexta-feira (13), às 19h
No Senac Campinas (Rua Sacramento, 490 - Centro). Telefone: (19) 2117-0600
De graça
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
A ÚLTIMA CEIA DE 1964 (Ou OS TESTÍCULOS DO ANTONIO HOUAISS)
“Um
que come do meu prato, eis o que me entregará”
(Mateus VI,23)
(Mateus VI,23)
– Vocês já provaram testículos?
Disse de
repente Antonio Houaiss lá pelas onze.
Isso
acontecia sempre. Era a hora, naquelas reuniões do seu apartamento em Tudor
Place, em que H. nos brindava com seus surpreendentes pratos exquis, sua paixão – petiscos, coisas de
gastrônomo requintado, qualquer chicória preparada por ele era manjar dos
deuses, nunca provada antes nem depois. E era o todo do seu ambiente, o
requinte intelectual e material – os quadros, coleção, quadros brasileiros na maioria,
alguns com dedicatória do pintor. E os tapetes persas, e aquele sofá preto –
que era feito apenas de uma porta e algumas almofadas, dizia ele. E a ânfora
grega do século VI A.C. E todas aquelas
coisas, seu personalismo, seu bom gosto, inscritas na trajetória daquele homem
pequeno, muito feio, muito inteligente, o filho de um alfaiate árabe de
Copacabana, um pequenino homem, um gourmet
com apenas um terço do estômago, um diplomata que...
– Testículos?
Nos grandes momentos históricos, há de repente um momento
em que a gente sente que está vivendo um momento histórico. Que algum dia,
quando se quiser contar aqueles dias, uma frase haverá, a expressão de um
rosto, uma música, um cheiro, qualquer coisa – da qual nos recordaremos, como
se fosse um ponto atingido, o ponto da estranheza, um ponto em que se diz aqui estou eu vivendo isto e esta é uma cena de romance. Na
concreção do detalhe, e às vezes do mais insignificante e até ridículo detalhe,
nos fixamos – é nele que conseguimos nos definir, muito mais tarde, dizer, ah! assim éramos, assim éramos nós, naquele tempo...
Assim éramos
nós, atingidos, tensos, infelizes, naqueles primeiros dias de abril de 1964. Um
bando de diplomatas até a véspera engajados na política externa independente de
um Governo que em noite recente dissera resistirei
até a morte, e que no dia seguinte
aparecia sorridente e acenando na porta do avião que o levara para o Uruguai.
Sim – vivíamos a
História, seus repentes, sua traição. Naquele momento nos sentíamos órfãos,
desamparados. Como cantores de ópera que, no meio de uma ária importantíssima, sentissem que repentinamente
a orquestra parara – o gesto esboçado, o sopro na garganta, a palavra
cortada... de repente alguma coisa aconteceu – o tiro de pistola no meio do
concerto, de que falava Stendhal?
Surpreendidos em nossa representação. Diplomata, o que representa, eis
aí. Parados no meio do palco, nosso recital que ia tão bem, tão brilhantemente
orquestrado ( Congratulations, Mrs. R.,
your husband is the most brilliant diplomat
in the Second Commitee...) tão fluente e com libreto tão interessante a
ópera, nós, geração privilegiada, geração juscelinista, geração
desenvolvimentista, nós que acabáramos de ganhar um mundo todinho nosso, onde
ordenaríamos uma sociedade enfim justa, achávamos, ancorados na nossa
pretensão...
– O golpe militar no Brasil
atingiu a coluna cervical da América Latina – diziam-nos os colegas
estrangeiros, dando-nos os pêsames.
Era esse
luto, então. Essa apreensão. O que aconteceria, com o país, conosco? Estávamos
ainda com os trajes da cena anterior, a garganta seca esperando, no momento
seguinte o que, quê regente, quê orquestra, quê música?
E comíamos
testículos de boi, regados a Château-neuf-du Pape, congraçados, uns poucos de
nós, naquela noite de abril com saudações de primavera, no refinadíssimo
apartamento do nosso líder de pensamento esquerdista, em Tudor Place, entre
ânforas gregas, tapetes persas e livros raros. E todos nós sentíamos, aquele
era um pré-momento, a transição, como se configurariam para nós as coisas, no
momento seguinte? – nós, pela própria situação profissional colocados
exatamente no meio das históricas coisas, à mercê de telex governamentais
ríspidos e objetivos, cada momento, cada gesto, cada movida de telex uma ameaça
possível e definitiva, remoção, demissão, pescoço cortado, exílios?
A minha
ansiedade de mãe recém-parida verteu-se numa quilometral conta telefônica Nova
York-Genebra – justamente na véspera do golpe meu marido viajara, para
participar da sessão anual, na ONU européia. Localmente, tentava me valer da
experiência dos próprios H., em matéria de reviravoltas políticas – já eram
vezeiros nessas coisas. A. H. sofrera um primeiro expurgo, ainda no tempo de
Getúlio – presidente-eleito (normalidade democrática? é o que se diz, basta ver
isso para pensar que não...). Na mesma leva, nos anos 50, que também afastara
da carreira durante sete anos João Cabral de Mello Netto.Em 1956 ambos haviam
ganho uma batalha judicial contra o Itamaraty. Naqueles primeiros meses de 64,
Antonio Houaiss havia sido promovido a Ministro. Sua mulher, Ruth, dizia:
– Não pode
ser. Se o A. foi promovido, alguma coisa vai acontecer no Brasil...
Aconteceu.
O apelido de Ruth era Cassandra.
Mas Ruth não
era a única a achar que alguma coisa devia acontecer no Brasil.
Havia, sim,
aquele feeling no ar, aquele
desconforto.Desde o trágico 22 de novembro de 1963, o assassinato de Kennedy. O
fortalecimento dos regimes militares na América do Sul. Da direita.
Então naquela
véspera da traição, naquela histórica última ceia, éramos poucos e avulsos, uns
seis ou sete, porque logo, atingida pelo raio golpista, a Delegação se cindira
– os deste lado e os do lado de lá, o desconforto, a asperidade do momento – as
máscaras que caíam. O bonde da História que descarrilava. Muitos tentavam se
equilibrar a todo custo, agarrando-se aos balaústres, jogando os colegas para
os trilhos. Alguns conseguiram: cresceram dedos em riste, cochichos, por trás
das portas. E foi na Delegação do Brasil junto à ONU, em Nova York – definida
como célula comunista – que se instalaria, logo mais, o primeiro Inquérito
Político-Militar (IPM) do Brasil.
A véspera da traição.
(E o que o atraiçoou comia à mesa com ele, no banquete dos testículos –
de boi. Na ceia dos aflitos).
Entre os
devotos discípulos, comia à mesa um colega diplomata que chamarei de Gilberto
Torres Melo, naquele tempo chefe interino de nossa Delegação. Era um homem feio
e pesadão, e para rimar, garanhão. Cada ano aparecia com uma nova mulher, que
apresentava como “Senhora Torres Melo”, um dia acordava, olhava para a cara da
mulher ao seu lado e se perguntava o que
esta Fulana está fazendo aqui? E
despedia-a. De casamento mesmo tivera um ou dois, e um filho que lhe sobrava do
outro lado do mundo. Houaiss e Ruth eram seus amicíssimos de longa data, os que
lhe davam estabilidade, os que lhe lembravam o aniversário do longínquo garoto,
de quem eram padrinhos. Os que lhe emprestavam dinheiro até, se dizia. Nas
curtidas noites de Tudor Place e papo socializante, Torres Melo era dos mais
assíduos, embasbacado de entusiasmo com os brilhantes intelectuais que lhe
ornamentavam a Delegação.
Partilhávamos naquela noite um gosto de exílio antecipado – e era uma
despedida. Um banquete ritual de condenado. Porque Antonio Houaiss já recebera ordem para deixar Nova York e
assumir outro posto consular, no Canadá. Era o dedo amigo do Embaixador Azeredo
Silveira, naquela época chefe do Departamento de Administração do Itamaraty,
que o queria proteger, tentando retirá-lo da cena. (Não houve na realidade
tempo para essa tentativa de se esconder o A. H. – um mês mais tarde, já em
Montreal, acabou sendo chamado ao Brasil, submetido a inquérito e novamente
cassado).
Mas no dia
seguinte Carlos Lacerda – que passaria à História como “O Corvo” – ainda
empolgado pelo golpe que ajudara a tramar, ainda Governador do Rio, ainda
“revolucionário” (depois seria também robespierramente guilhotinado), chegava
para uma visita oficial a Nova York. Torres Melo revigorado, recuperado da
depressão da véspera – tal o poder dos testículos de boi –, desdobrou-se,
recebeu-o regiamente, todo sabujo e lambuzo. Num banquete teceu os maiores
elogios ao Governador e à gloriosa Revolução que eliminara a Hidra Vermelha.
E mandou a
secretária ligar para os H.: eles que desculpassem, contava com a sua
compreensão, mas daquele momento em diante deveriam considerar-se proibidos de
comparecer ao recinto da Delegação. E suspendia inclusive a festinha de
despedida que estava sendo preparada pelos funcionários – prevista no
cerimonial da Casa. Porque tudo, no estreito mundo do Diplomata, rege-se
segundo um estrito protocolo – até os assuntos sexuais e de família, como tive
ampla oportunidade de verificar na própria escorchada pele.
No caso de
transferência de posto, prescreve o protocolo algumas palavras, mesmo alguma
emoção permitida no lencinho bordado de alguma antiga funcionária – quando o
chefe em questão foi “tão bom”. E a solene entrega de uma bandeja de prata, que
varia em peso e tamanho, rigorosamente, com o cargo ocupado pelo diplomata.
Naquele caso, sendo H. Ministro, o peso seria razoável.
Não houve
bandeja. Desfalcada ficou a coleção dos H.: Torres Melo, aquele amigo da
véspera, aquele que comera do mesmo prato dele, renegava-o – proibia a entrega
do troféu.
Nem conhecia mesmo, o A. H.
E se
segurava, com todas as mãos, à Carreira, ao cargo. Morreu Embaixador,
aposentado, pensão assegurada.
Como se vê:
testículos, são coisa importante.
_______
(Do romance autobiográfico inédito
MEMÓRIAS
IMPERFEITAMENTE DIPLOMÁTICAS)
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
SÍLVIA
Conto de Cecilia Prada
A
primeira coisa que me atingiu foi o cheiro de mato doce, mato de manhã, lavanda
de loja de perfumes naturais, cheiro de suavidade maliciosa, pensei. E que me
excitou logo.
Olhei-a: verde. Sim, o vestido só podia ser verde, pensei, e a pele aquela cor
de maçã amadurecendo. Ou cor de casca de romã. A minissaia verde de babado e as
pernas tensas se oferecendo. E aquele jeito esquivo de olhar, como quem zomba.
Um jeito que me atingia de cheio, junto com o perfume de manhã no mato e com o
meneio das cadeiras, do tronco leve e flexível. Oi – ela me
disse. E de repente, no saguão onde trezentas pessoas se comprimiam tentando
alcançar o bufê, só ela existia, me chamando.
Fiquei como um bobo, como menino de dez anos, olhando para ela, com um repuxão
forte no sexo.
– Oi, respondi. Eu me chamo João Henrique. E você?
– Sílvia.
Alguém a empurrou e o seu braço de penugem leve castanho-dourada tocou no meu e
eu já era, desde aquele momento, uno e tenso num desejo que subia em mim com
garras. Esqueci o que estava fazendo ali, só existia ela, Sílvia, o tronco
verde flexível, a cor de fruta que amadurece, o cheiro de folhas pisadas. E
minhas mãos, senti – agarrando forte o copo de uísque –, se ficassem livres
teriam fúrias que só se apagariam quando conseguisse cravá-las no flexível
tronco nu, por baixo da pelagem daquele vestido verde.
– Vamos sair daqui?
Ela concordou.
– Que tal um lugar mais sossegado?
Evidente que era um clichê. Me senti totalmente ridículo. Ela era uma deusa, eu
sabia, e que linguagem empregar com deusas? ela, Sílvia, com seu cheiro de
folhas/flores amassadas, ela toda seiva e convite e eu, um publicitário engravatado,
de trinta e dois anos, casado e com dois filhos. Esperei que a deusa risse com
desprezo do meu clichê. Mas ela estava parada como se não tivesse ouvido nada.
Ou como se ouvisse outras coisas. Outras vozes. E algo de tão arisco havia no
seu jeito de menina-flor, que eu, no meu desejo, temia vê-la desaparecer, ela,
Sílvia, a visão verde-úmida, verde musgo, verde-selva.
–Tem de ser num lugar muito alto. E muito quieto.
– Sim, disse eu perdido, sem poder desgrudar dos olhos oblíquos zombadores,
também eles, parecia, de uma tonalidade verde cambiante, acastanhados,
dourados, que era como uma cor pela primeira vez reparada, cor-revelação – como
no mato, a gente olha e vê todos os tons de todos os verdes, de todos os verdes
diferentemente verdes.
Perdido,
pensei. Porque já sabia que aquela frase era a primeira de uma série de ordens,
instruções para decifrar o enigma Sílvia e que o primeiro signo, alto e
quieto, seria seguido de outros e que eu cego me lançando... Uma coisa
assim de ameaça. De risco. De medo.
Tomei-lhe o braço e atravessei a rua, lembrando do bar-terraço no trigésimo
andar. Era como uma história antiga: a princesa e suas tarefas.
Ofereci-lhe a mesa mais próxima do parapeito, num gesto de quem era dono da
cidade. Aos teus pés, diva – enquanto ela pedia um coquetel de frutas. E eu,
meu quarto uísque da noite. No primeiro gole pensei é o efeito da
bebida. Porque agora eu sentia com uma viveza que me deixava louco o
cheiro das frutas do seu coquetel, mas o cheiro de cada fruta em separado,
ananás, banana, laranja, manga, sapoti, papaia, jambo... Jambo? Não havia jambo em
São Paulo, o pensamento me ocorria, me recorria, como num sonho, como uma
dessas frases-advertência dos sonhos, mas eu – e comecei a rir – eu sentia o cheiro
de cada fruta, o cheiro do jambo também, e do caju, e da pitanga, e do pequi, e
da mangaba, e do açaí, os diversos cheiros esmagados, como o das folhas do seu
perfume de loja de produtos naturais, tudo se somando, e me obcecando – e tudo
o que eu sabia, tudo o que eu conseguia saber naquele momento era que queria
apagar minha febre minha fome minha sede contra aquele tronco nu e flexível de
pelagem verde, apagar-me, possuindo-o.
Afastei o uísque, desconfiado. Enquanto ela, tranqüila, tão fria e distante da
minha febre, com gestos de menina eterna sugava o coquetel de frutas, com um
canudinho plástico. O tempo regulamentar – pensei, medindo a duração dos
momentos rituais de uma aproximação bem educada, civilizada, bem ritmada,
tentando uma conversa na qual eu deveria mostrar-me despreocupado, alegre,
engraçado, bom companheiro, amigo, etc. – todas essas coisas que eu não era nem
queria ser, dela. Ou de mulher alguma, na verdade. Para depois, só depois,
chegar à única coisa que me interessava, a aproximação física, a mão primeiro,
o braço depois, aquele infalível por que você não chega mais perto?
O beijo. O convite. A cama, enfim. Se tivesse sorte.
Foi naquele momento que percebi o que havia de diferente naquela tensão de
espera, naquela particular noite, naquela particular mulher – eu só conseguia
imaginar- me possuindo Sílvia numa fúria violenta, de pé contra ela, num
esmagamento, só assim, numa fusão... E senti medo. Medo, eu, publicitário,
engravatado, trinta e dois anos, casado e com dois filhos. Como se ela, aquela
doce moça de fragrâncias naturais e vestido verde, a moça de pele de casca de
romã, a moça que sorvia um coquetel de frutas com um canudinho, fosse me
devorar. Como se no momento daquela posse eu pudesse me ver desaparecendo dentro
do seu corpo e...
Não devia ter bebido tanto, pensei, aborrecido.
– João Henrique.
Ela
disse meu nome de leve e o som era uma pontuação no silêncio. Porque
evidentemente naquele momento, naquela noite, eu não estava conseguindo cumprir
a etapa “conversa” do ritual de aproximação. Ela percorria a minha insegurança.
A minha angústia. Uma angústia que me excitava ainda mais, como se tudo me
fosse novo e desconhecido. Reparei também que o final da tarde estava tranqüilo
demais, que se podia ver uma estrela no céu transparente, uma estrelinha
precoce piscando – o que era impossível numa cidade como São Paulo, pensei.
Como há pouco pensara que era impossível reconhecer o cheiro do jambo no seu
coquetel. E o silêncio. Um silêncio demasiado, impossível ele também, naquela
hora do ruche, mesmo lá em cima no trigésimo andar. Ao menos as buzinas... Ao
menos as buzinas.
Mas a princesa, quando nos levantamos da mesa e maquinalmente nos olhamos num e
agora?, a princesa já me dava a segunda ordem:
– Tem que ser muito escuro. E muito longe.
...e era um desafio, uma vez mais pensei, me sentindo como um garoto que tinha
de enfrentar dragões e piratas, e esse desafio era um estímulo, porque agora eu
tinha a confirmação: havia algo, sim, naquela mulher-menina infinitamente
antiga, alguma coisa que não poderia de forma alguma combinar com motéis e
lençóis.
(...mas quando descíamos no elevador havia uma parte de mim que queria dizer
isso mesmo, “um bom motel e lençóis”. Uma parte tola, banal, comodista, de mim.
Banal como a minha gravata, o meu terno de tropical. A minha profissão – suspirei).
...e a outra parte minha, a que vinha de longe e me espiava de um canto, sentia
de uma forma muito aguda a estranheza clara de todos nossos ritmados
movimentos. Naquela noite.
A bebida, a bebida, eu repetia num pasmo, talvez tenham misturado alguma coisa,
e enquanto isso abria a porta do Jaguar, para Sílvia subir. Enquanto nos
afastávamos da cidade numa corrida tão louca quanto permitia a frustração
sistemática dos sinais de trânsito, nem eu nem ela falávamos. Eu só sentia a
pulsão do sexo sob o tropical, cada vez eu mais obcecado pelo flexível
junco-tronco-flor ao meu lado, sabendo que na hora da posse minhas unhas iam
dilacerar sua pele de romã. Essa pulsão, essa fúria, era comum aos dois. Eu
sentia isso no seu silêncio. Estranhamente não houvera entre nós a banalidade
do beijo, do abraço desajeitado, da mão sob o vestido, nada. Era uma corrida só
e frenética, para um objetivo final.
Quando chegamos à mata da Cantareira a noite já chegara também, devagarinho,
com volúpia e delícia demorada de noite de verão, uma cumplicidade a sua
escuridão que espantava para muito longe um último raio encarnado do poente.
– Aqui, me disse a princesa.
Eu refrei o esbravejante Jaguar, estacando-o.
Quando desceu, a saia verde de babados rodopiou, E com os cabelos agora
desatados ela correu para uma pequena elevação de terra e ficou assim um
momento e havia um vento leve e o seu rosto de olhos fechados ainda era visível
naquele último clarão dourado, ela toda verde castanha dourada, ela e seu
cheiro de mato aguçado e dominante e que me deixava louco e eu aos tropeços
corri para segurá-la mas ela mais ágil se esquivou, agora com um riso de mofa.
E tirando as sandálias começou a correr descalça e depois sentiu as meias como
se estivessem incomodando a sua corrida e naquele breve momento em que levantou
a saia para tirar rápida a meia-calça eu a alcancei e...
Mas não a alcancei porque ela já fugia rindo, rindo, os cabelos soltos muito
longos e loucos e ela, louca, que se perdia entre os troncos, afastava os
galhos soltos, livrava-se dos espinhos, corria, corria e eu atrás, eu ainda de
gravata e terno, e nascia uma fúria em mim contra minha roupa, meu impedimento,
eu sentia, eu queria arrancar tudo e comecei pelo mocassim de cromo alemão que
chutei para longe embora ainda registrasse que era de cromo alemão, como se
naquele momento último houvesse ainda um resto, um resto só de valor monetário
em mim, mas o deseja da liberdade, de Sílvia, prevalecia, e arranquei a
gravata, o paletó, a camisa, e ofegante corria, me perdia confuso mas ela
estava no seu elemento e eu, eu me embaraçava nos galhos, tropeçava nas pedras,
os espinhos me rasgavam, eu ridículo, eu só, eu homem da cidade, e a raiva me
cobria de suor e essa raiva aumentava o desejo, eu palpitava com a noite com as
árvores com ela, Sílvia, eu a agarrava enfim, eu lhe rasgava o vestido verde eu
lhe enfiava as unhas na carne clara eu a encostava contra a aspereza de um tronco,
eu desabotoava a braguilha e lhe arrancava a tanga cor de carne, violáceo meu
membro estremecia no contato frio do orvalho da noite do ventre dela e meus
braços desesperados a cercavam, enfurecido eu queria quebrá-la devorá-la
esmagá-la para me apaziguar contra ela e agora o prazer da penetração na fenda
musgosa já era dor eu sentia o pênis arder de encontro à fria imobilidade dela
e minhas mãos fechavam o vazio porque ela, Sílvia, ela já não estava mais, já
não era, a minha quase-posse, ou teria sido realmente posse? a desfizera, e eu
soluçando me esfregava, menino, no tronco áspero da romãzeira, na fibra
gosmenta da bananeira, eu garoto, pequeno, impotente, devorado pela jaqueira
enorme do quintal, o pênis esfolado e agora frouxo pendendo no alívio
temporário e humilhante, enquanto ao longe a voz de minha mãe me chamava, pelo
pasto: “João... João Henrique. Joãozinho!... Onde você está, menino? Passa já
pra dentro que está serenando”.
______________________
Do
livro Estudos de Interiores para uma Arquitetura da Solidão (DBA
Books & Arts, SP-2004)
terça-feira, 2 de julho de 2013
DIÁRIO DO NÃO-LIVRO
(1997)
Que
assim se fará, me digo, a mão deslizando no papel antigo reencontrado, diário
de liberação do micro, diário de deixar-me ir (vir), ser, não-ser, catar/coçar,
mas dizer - da dor da madrugada em que acordo ainda com a coluna massacrada da
véspera e vou me perdendo nos túneis da insônia.
O Diário de um Não-Livro é a
liberdade. É pegar as pontas esgarçadas
do ser, minhas talagarças, fios soltos, capinzal. Uma personagem de Clarice também
dizia: “Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me
resignar a seguir um fio só : meu enredamento vem de que uma história é feita
de muitas histórias”.
Isto sou eu, meus escritos, a
perplexidade. O que é escrever - a pergunta eterna, que não se responde, só se
desfaz: no rabisco. Mas eu amanheci inventando a liberdade, a descoberta do
Não-Livro que se faz sempre, obscuro e destravado em nós, se processa. E de
repente em um dia, mais uma madrugada chuvosa, e acordando em dor: que é
preciso prestar um ouvido a esse Não-Livro em nós, aquele que, por primo pobre
e sombrio, rejeitamos - porque ele é o verdadeiro, é o rascunho do Ser
e o Ser é sempre rascunho, pobre,
esfarrapado, e glorioso também, mas de glória solitária, o resplendor na noite
- o dom das madrugadas. E o resto, é academia de letras. E João Guimarães Rosa
dizendo, no seu último discurso, na posse da Academia Brasileira: “Mas o que o
homem é‚ depois de tudo, é a soma das vezes em que pôde dominar em si mesmo a
natureza. Sobre o incompleto feitio que a existência lhe impôs, a forma que ele
tentou dar ao próprio e dorido rascunho”
e
assim me redescubro, um eu-menina, Cecília com seu caderno, a hoje grisonante
estafada senhora, o freio nos dentes, o olhar numa súplica última : o Caderno,
nos dentes. Duas pontas.
(O
Não-Livro, sim, que é coisa de esconsos e parênteses, está desperto em mim
nesta recém-manhã e me traz as coisas pelo menos da véspera, mas que saem do
imenso caldo em que estiveram mergulhadas - do fluxo existencial que vem também
de outros tempos, de outras vidas?)
A
“ficção” é sempre a ficção de que o livro se fez de uma vez só - escrito
inteirinho , por milagre. Em qualquer livro de ficção, romance ou novela - a
ficção é a mentira do escritor escrevendo aquele livro sem continuar vivendo
sua contingência diária, seu suor/lágrimas/sangue. Como se levasse os
manuscritos sobre as águas, ou sobre o
ronco do terremoto - que é o desta realidade em que vivemos. Um livro sem “Nohant”
– e explico: que eu sempre me dizia que um dia, quando fosse mais velha, como
George Sand me retiraria para uma propriedade chamada Nohant e ficaria ali com
meu cachorro, escrevendo e passeando no campo, feliz e sossegada. Mas hoje, sem
sossego, sem propriedade alguma campestre ou urbana, e nem mesmo um cachorro
que me preste um ouvido atento, só tenho em mim este livro que é Não-Livro,
porque eternamente incompleto, desatado, livro da metrópole e dos meus 350 eus,
das costuras esgarçadas se mostrando
obscenas, rindo um riso muito mau, derrisão - na face do todo-dia.
____________
segunda-feira, 6 de maio de 2013
A MÃE - Um conto de Cecília Prada
Dessa avó, posso dizer que a sinto tronco e nó. Que nos meus cabelos
encontro suas raízes. Quando me penteio, lembro dos dela, grisalhos e que nunca
foram cortados, caindo-lhe pelos joelhos, para espanto da meninazinha de seis
anos que assim, numa revelação, via uma avó diferente, quase moça – antes que a
cabeleira voltasse inexoravelmente a amarrar-se no coque do alto da cabeça.
Dessa avó, nasceu-me uma curiosidade, pelo meio
da vida. Nos meus inquietos membros, nas noites insones, na vontade de fuga,
minha avó – achei-a em mim.
Uma vez ela me contou: “Depois de casada, uma vez passou um
circo em Ribeirão das Velas, eu perguntei para o Jorge porque a gente não ia
embora com eles”.
Mas a lembrança que me parece mais forte é uma
que nunca pude ter, que se formou de um retrato esmaecido, um riso, um olhar. A
lembrança que me veio de contada, ao pé do braseiro, numa noite fria: a da Ana
de 1897, com seu cabelo solto e lindo, trepada na mangueira – o gosto da fruta,
a casca arrancada com o dente. A da Ana caçula mimada, permitiam-lhe tudo que
quisesse, montar em pelo como os irmãos, ir tocar o gado com eles, tourear
vacas mansas até que ficassem bravas. Ou banhar-se no riacho de águas claras no
frio da manhã, abrindo bem os olhos para ver como era lá embaixo.
E a ordem paterna que selara seu destino,
repercutindo no céu claro daquela manhã de abril de 1897, ecoando numa
despedida, na água fria, no pasto, na mangueira onde Ana se balançava, Ana de
dezesseis anos:
–Nhãna, desce já dai. Tá na hora do casamento.
Mas o
marido fora escolha dela, fazia questão de contar: “Quando eu tinha treze anos
meu pai me disse que eu ia casar com um conhecido dele, um velho. Eu disse que
não, que nunca. Que fugia de casa. Que me matava. Só me casei com Jorge porque quis”.
Na missa de
domingo na Matriz, os homens de um lado, as mulheres de outro, Ana olhava para
Jorge – bem posto, vinte e seis anos, bigode louro retorcido. Ana ria, mostrando
os dentinhos. Desse riso, do deslumbramento de Jorge, um casamento. Uma vida.
–Nhãna, desce já dai sua peste. Não vê que tá na hora?
Passou os lábios com vagar e gozo no caroço da
fruta. Se lançou no espaço, com a última perdida liberdade de menina, a saia
aberta em balão no vento. Entrou na casa da fazenda, a irmã mais velha
empurrou-a, anda. No terreiro Chico,
o irmão que mais tarde, depois da morte do pai, com direitos de primogenitura
venderia a fazenda a retalho, prejudicando os irmãos, abriu riso largo:
– Ôta
noiva demorada, parece que nem tá querendo...
A
porta fechada, a cômoda escura abrindo lenta os seus mistérios – a mortalha
branca esperando-a. Mãos de tias impingiram-lhe bem forte um espartilho, para
que bem contida se sentisse, nunca mais a menina de corpo livre na cachoeira.
Os seios miúdos levantados como se enrijecidos devessem se apresentar ao mundo,
num atestado de múltiplas maternidades futuras.
Os cabelos levantados e presos, no penteado que
se afofava do lado mas que lhes escondia a beleza indisciplinada. Seria de
agora em diante: uma mulher casada. Uma senhora. Numa facada espetaram-lhe no
cimo do coque um pente espanhol de tartaruga, presente do pai – símbolo de um
domínio nunca perdido. Pronto o rígido manequim, as mãos femininas da família
derramaram sobre o corpo de Ana o dom supremo, o véu da tradição, amarelado.
Que lhe caiu da cabeça aos pés.
–
Foi da sua avó.
Naquela clara manhã de abril, sentindo o peso da renda francesa sobre o
corpo de menina, Ana estremeceu. Parecia o peso daquele varal de roupas que –
diziam – caíra sobre o corpo da avó Mariana, quando estava no resguardo do
décimo filho: “Chovia, recolheram as fraldas da criança, estenderam todas no
quarto. O varal caiu bem em cima da barriga dela quando estava dormindo. Ela
deu um grito e ficou louca. Resguardo é coisa de muito cuidado”.
Contemplada com a cascata de renda envelhecida sobre a cabeça, Ana
pensou na figura daquela avó louca, andando suja pela fazenda, não reconhecendo
nem os filhos. Estremeceu e se olhou no espelho. Quem era aquela estranha e
rija senhora de cabelo alto, cintura tão fina e seios assim empinados?
Levaram-na.
*
Quando a deitaram na cama,
já as dores a abriam pelo meio, espantosas. O filho entalado nas entranhas sem
querer sair, no corpo de menina que não se alargava. Que se recusava. Jorge
olhou-a, tão linda, e Jorge chorava – porque Ana ia morrer. O rosto lívido que
se contraía no grito, os olhos baços, olhando longe – via Mariana vagando louca
pelo casarão da fazenda, a cabeça batendo no travesseiro. Na fronha essa
presença constante de rendas, ainda uma vez, como se as rendas cobrissem o seu
sofrimento, como se rendas pudessem ajudar o menino enorme retido no seu
ventre.
Amarraram suas mãos na cabeceira da cama, o corpo aberto em cruz, as
pernas afastadas, a parteira gorda apoiada sobre sua barriga, apertando. Foram
buscar o chapéu do marido. Ajudava. Jogaram o chapéu, grotesco, sobre a
cabeleira dispersa de Ana, Ana que ia morrer, Ana-menina, estreita demais para
parir.
Chegaram o padre e o médico que vinha da cidade
maior. O padre ia rezando De profundis
clamavi ad te Domine, esses óleos da morte sobre o corpo em flor de Ana. O
médico de mangas arregaçadas, mergulhando as mãos fundas na pélvis, quase
desanimado: “Não tenho recursos”. A cidadezinha não permitia uma cesariana. Não
havia mais tempo para removê-la.
–Mas
essa criança passa, disse ele de repente surpreso. Ela não é tão estreita.
E
olhou sem compreender aquela menina que parecia se fechar. Se recusando a dar
vida ao pequeno ser que lhe haviam imposto no ventre. O médico sacudia-a pelo
ombro, tentando paralisar o seu rouco grito de animal estripado:
–Donana, faça força. Depende da senhora, deixe a criança vir, Donana.
Donana!
Levaram Jorge para fora do quarto, e ele soluçava, como se fosse
culpado. A mãe, chorava: “Nhãna, minha filhinha, minha filhinha, coitadinha,
ela é tão criança”.
O
fórceps agora mergulhava fundo, uma sonda de aço, impiedosa, ferindo-a, o
médico suava, pedindo: “Mais um pouquinho, Donana, faça força. Não grite,
Donana, faça força para baixo”.
A
parteira trazia uma garrafa. Ergueram Ana semi-cadáver de óleos ungida,
faziam-na soprar dentro de uma garrafa. De repente ela abriu os olhos, soprou
com uma força que parecia um ódio (Mas disso ninguém nunca soube. Nem ela).
Soprou sua alma. Aos poucos a cabeça da criança começou a surgir da pélvis
violentada, veio vindo num alívio. Algo que se desligava dela para sempre. Algo
que nunca mais seria dela. Mas que agora não a fazia sofrer mais. A cabeça de
cabelos lindos e soltos caiu no travesseiro, o menino chorou forte e Jorge
entrou no quarto, “Ana, minha querida!”. Mas os olhos de Ana permaneciam fixos.
O médico disse: “É um menino, Donana”. Ela só
disse: “Me deixem dormir”.
Jorge chamou o filho de Júlio, em homenagem a seu pai.
*
Alargada à força, sem resistências, como se fosse uma abdicação, a
fecunda pélvis de Donana pariu mais nove filhos, entre natimortos, prematuros,
alguns quantos mortos na tenra infância, de diarréia, de febre, de pneumonia.
Sobreviveram seis. Aos oitenta anos, Ana chorava quando falava da morte de
Mariquinhas, a segunda filha, aquela tão linda que parecia um anjo, e que
começava a falar quando morrera de gastroenterite. Contava: “Eu já estava até
prenhe de novo (do terceiro filho, João) mas quando a criança nasceu nem olhei
para ela”.
E tudo
se seguiu no igual de todas as vidas, de todas as histórias. Na vida pobre, nos
invernos duros, na comida parca, na economia, na mão rachada, nos empregos
vários de Jorge – até que arranjasse uma segurança mísera como escriturário de
um cartório. No parto dos gêmeos, natimortos, ela quase morrera também.
“Cheguei a ficar de unha roxa e mestre Marcelino veio me ver, ele olhou para
mim de cima a baixo e eu sabia porque, era para medir o tamanho do caixão.”.
Milagre de São Benedito salvara Ana. Quando se levantou, amarrou um pano
branco na cabeça, ficou na rede balançando, um ano, sem falar com ninguém.
Enquanto a filha Lourdes, de oito anos, tomava conta dos irmãos, pondo um
caixote para alcançar o fogão de lenha, queimando-se com óleo fervente. Se
iniciando.
Depois de um ano, Ana desamarrou o pano da cabeça, retomou a vida. Teve
mais três partos, todos dolorosos, um bem sucedido. Aos trinta e oito anos não
tinha mais um dente. “Cada filho um dente”. Mas nunca deixou que lhe cortassem
o cabelo. Para surpresa da neta, que um dia o veria todo grisalho, e tão
comprido que lhe chegava aos joelhos.
Levantava bem cedinho e antes das lides da casa lia o jornal, soletrando
alto. “Quando eu era menina foi um alemão lá na fazenda, me ensinou a ler. E
disse para o meu pai que era uma pena, que eu devia estudar. Mas naquele tempo
só homem estudava. Meu pai mandou o alemão embora porque punha idéia na minha
cabeça. Nunca aprendi a escrever. Só sei assinar o nome”.
Jorge tinha muito orgulho da família que ia crescendo. Olhava para os
netos: “Não é para falar, mas que meus netos são todos muito bonitos, são.
Puxaram pela avó”. Se gostavam ainda, ele, Ana. Vieram as bodas múltiplas, de
prata, de ouro. Dois anos antes das de diamante Jorge morreu, numa noite, de
repente.
Ana nunca mais falou no marido morto.
Começou a ficar de olhar vago, a falar das coisas da fazenda, do fundo claro do
ribeirão, uma beleza quando a gente mergulhava com os olhos abertos, via todos
aqueles peixes. E falava da vaca malhada, que era tão mansa, e ela brincando de
tourada com ela, virara uma fera . Ria olhando para coisas que só ela via.
Os
filhos e netos ficaram tristes. “A mãe começou a caducar”.
Num dia de festa, o batizado da primeira
bisneta, notaram que Ana misturava os nomes e as pessoas, tratava as netas
trintonas como se fossem meninas.
Um
dia lhe apontaram o filho mais velho, Júlio, de cabelos brancos, apoiado numa
bengala – esse que quase a matara, esse que lhe disputara a vida nas entranhas
que se fechavam.
– E
esse aí, Mãe, quem é?
Ana
olhou com olhos vagos, do alto da mangueira, riu alto:
–
Esse velho aí? Sei lá.
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Do livro Estudos de Interiores para
uma Arquitetura da
Solidão- ( DBA Books & Arts-SP-2004)
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